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Tem uma coisa que eu posso dizer sobre perfeito

Tem uma coisa que eu posso dizer sobre perfeito.
É um pouco solitário.
Mas é muito organizado.
Tudo muito assim, azul turquesa! Azul turquesa e sem manchas. Reluzente e combinando.
Assim, bem, bem, bem, bem comportado.

SÍSIFO

Era uma vez um sujeito perfeito. Tudo, tudo no lugar. Cabelo, nariz, dedos. Impressionante. Sapatos lustros nos seus pequenos pezinhos. Braços longos. Jaqueta de couro. Ele vivia lá sua vida, um lugar para cada coisa, cada coisa no seu lugar. Mas em volta, no mundo, era uma desordem, uma confusão, uma catástrofe mesmo. Ele, esse sujeito perfeito, um dia olhou pro mundo e disse com sua voz suave: deixa que eu arrumo tudo. E saiu por aí, arrumando. Tudo o que achava fora de lugar, ou feio, ou gasto, tudo. E quanto mais arrumava, mais arrumava, e nunca acabava, porque tudo o que ele ajeitava o mundo dava um jeito e desajeitava. E no fim a confusão era sempre a mesma do início. Mas ele não desistia, e de novo saia arrumando e arrumando, coisas, lugares, tudo certinho e PÃN! Tudo errado outra vez. Trevas! Até que um dia o sujeito, de tão cansado,  parou. E parado ali, no meio da confusão, sentou. E sentado ali ele olhou. O mundo. E olhando pra tudo aquilo ele pensou: até que não está tão mal; se o peixe quer viver molhado, que viva; se a árvore quer ficar parada no mesmo lugar e nunca sair dali, que fique; se o passarinho quer voar de um lado pro outro sem parar, que voe – ele não entendia muito bem a coisa de por ovos, mas resolveu não encrencar -; o que ele não aceitava mesmo, era caramujo.

Imagem: Eileen Agar, Precious Stones, 1936

 

Ramal 340 em Montenegro

UMA ATRIZ — Tem alguma coisa antes, mas isso é o começo… plataforma de uma estação de trem, pessoas esperam, passam, vão, voltam, encontram-se. Ninguém fica muito tempo, nada se fixa, as coisas simplesmente passam umas pelas outras e acontecem pequenos choques, faíscas, como um caldo primordial esperando a eletricidade de um raio pra gerar a vida no mundo ou dois prótons viajando à velocidade da luz no acelerador de partículas dentro da maior máquina do mundo, um na direção do outro, então colidem e ali, no que sobra, coisas ainda menores do que as coisas impensavelmente pequenas que havia antes, talvez ali exista uma explicação para coisas como o fato de um cardume de sardinhas viajando pelo atlântico saber sempre o caminho e todos os peixes do cardume mudarem de direção sempre ao mesmo tempo e nunca confundirem, por exemplo, direita e esquerda, ou coisas como a vida, o movimento das estrelas, o preço da passagem e porque as pessoas simplesmente vão embora da sua vida e deixam pra trás um vazio que você tenta preencher com outras coisas como o álcool, mas você não vai em frente porque tem medo de que isso se torne um hábito e de ficar preso. Ninguém escolhe ser um viciado, AS PESSOAS SÃO FRÁGEIS.

Nos dias 15 e 16 de abril de 2016, realizaremos em Montenegro duas apresentações do espetáculo Ramal 340: sobre a migração das sardinhas ou porque as pessoas simplesmente vão embora. Continuar lendo Ramal 340 em Montenegro

Laboratório de Percepção

Ontem foi o primeiro dia do Laboratório de Percepção com as mulheres internas da Ala Feminina da Penitenciária Modulada Estadual de Montenegro. No ar, tinha uma densidade parecida com quando vai chover, uma antecipação, uma espera. Continuar lendo Laboratório de Percepção

“THANDA GOSHT” de Saadat Hasan Manto

Assim que Eesher Singh entrou no quarto, Kalwant Kaur levantou-se da cama, olhou para ele com seus olhos penetrantes e trancou a porta. Era passado da meia-noite e uma estranha e misteriosa quietude estranha e misteriosa parecia sufocar a cidade toda. Continuar lendo “THANDA GOSHT” de Saadat Hasan Manto

“Khol Do” de Saadat Hassan Manto

O trem deixou Amritsar às duas da tarde e chegou a Mughalpura depois de oito horas. Muitos do passageiros foram mortos no caminho, muitos feridos e alguns perdidos. Quando Sirajuddin abriu os olhos na manhã seguinte, viu-se deitado no chão frio do campo de refugiados. Continuar lendo “Khol Do” de Saadat Hassan Manto

Sobre não-lugares

Pense em pessoas andando sem parar, em um mar de pessoas que andam sem parar. Ninguém fica, nada fica, você está num espaço de trânsito e está parado. Você é como a câmera de segurança na estação de trem, as coisas passam por você como se o lugar não existisse. Continuar lendo Sobre não-lugares