INÍCIO, não-lugar, ruína

Começamos o encontro, a proposta do dia foi se apropriar de alguma figura e deixa-la fluir com o andar da sessão de ensaio. Havia um mote para a figura que não vou lhe contar, pois não posso.

Enfim, ele acabou de chegar e já adiantou um trabalho e o fez. É um homem forte , a busca do novo o impede de parar de andar, suas lembranças não lhe agradam, ele viveu a própria criação e destruição do ser humano. A mão na enxada permitia que a cabeça não atrapalhasse com as suas memórias ou suas morais e preconceitos. Suas memórias apresentaram para mim o que este homem viveu.

Agora eu era o funcionário de uma família.

Chegamos hoje ao terreno, temos que limpar o mato para começar a construção, no meio do trabalho percebo a presença de outra família, eles tinham outro idioma, o linguajar deles lembrava o da família que me criou, consegui me comunicar com eles. Meu patrão, Yuri discutiu com o senhor da outra família. O motivo era a demarcação da terra, eles quase se mataram, eu me meti para que houvesse um acordo, afinal as crianças já haviam vivenciado a experiência da morte. Durante o dia Katrina, a filha mais velha sumiu com o filho da outra família. Havia uma senhora que trabalhava para a outra família que os ajudou os dois para que se encontrassem sem ser vistos pelos pais. Os jovens se amavam escondidos, o pai de Katrina está procurando a menina, está desesperado, desconfia que a outra família pudesse ter feito algum mal a ela. Yuri encontra os dois jovens amantes nos fundos das ruínas e agora Katrina pode morrer sem ser enterrada ou eu terei de enterrá-la. Agora as duas famílias tem o sangue sujo com o amor dos jovens amantes.

O improviso nos levava a criar as situações mesmo que tivéssemos que realmente trabalhar como capinar o mato, o início do processo mostra a intensidade que queremos ter do trabalho. Eu imaginava que apenas iríamos limpar o local mas, ao ter que colocar os figurinos e nos apropriarmos de uma figura a relação com o espaço e o trabalho mudou completamente, não era o Marcelo, nem meus colegas, nem as ruínas que estavam lá, eram aqueles outros seres e um outro espaço. Eu me perdia ao ter que trabalhar e improvisar ao mesmo tempo, havia momentos em que fluía com o trabalho de capinar e a criação, em outros momentos pensava que estava lá para capinar e não para improvisar.

Logo nos primeiros dias do processo consegui perceber a influência da improvisação no trabalho da criação, sobre diversos estados de improvisação tudo o que era racional começou a ser quebrado, parei de julgar e escolher as minhas ações e apenas comecei a executá-las, por acertos e erros me sinto cada vez mais capaz de improvisar com um estado real de presença e vida.

Relato escrito por Marcelo Carvalho sobre os primeiros dias do processo de criação do RAMAL.

 

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